
Tenho observado de perto essa questão de músicos e ministério, e me deparo com várias fases, algumas boas, outras nem tanto, mas vejo que o assunto está em constante mutação. Tendo participado de “ministérios” de louvor – e me refiro a ministério com ressalvas, visto que o louvor não é exatamente um ministério, como nos diz em Efésios 4:11 e 12: “E Ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo;”, o que me leva a entender que se a música cristã não estiver relacionada com o fundamento do cristianismo, a profecia, o cuidado dos irmãos, o evangelismo e o ensino, não poderia ser classificada como ministério. – enfim, tenho ao longo de 20 anos vivido várias fases da música na igreja e pude observar alternâncias nas diferentes regiões do Brasil de acordo com as peculiaridades culturais de cada região, e cheguei a um “hoje” um tanto conturbado. Resolvi postar estes comentários sem nenhuma pretenção de estar certa ou errada, considere apenas uma troca de experiências.
Lembro-me de que quando comecei a tocar e cantar na igreja havia um movimento forte em relação ao “não-fazer-a-obra-de-Deus-relaxadamente”. Se estávamos fazendo música, era pra fazer direito. Não tinha essa conversa de “Ele-conhece-meu-coração” ou “Eu-não-sou-cantor-sou-adorador”, se você não era cantor, então que louvasse a Deus de outra forma, lendo um poema, escrevendo, enfim… se íamos tocar, tínhamos que fazer direito, tocar certinho. Precisávamos estudar música, afinal, antes disso as músicas eram partituradas em hinários.
Depois, com o advento das cifras, começaram a surgir os livretos com canções cifradas. Foi uma revolução, afinal, havia a possibilidade de arranjos e canções mais modernas, atuais pra época. Os músicos empolgados introduziram os instrumentos como bateria e guitarra elétrica, e a coisa foi ficando mais interessante, a música ficou mais acessível e tudo muito mais atrativo para os que apenas observavam e participavam do lado de cá da plataforma.
Enfim, pulando a fase de que todo mundo tinha que aprender o que fazer com toda aquela parafernalha de instrumentos juntos, depois de um tempo, especificamente nas cidades grandes como São Paulo e Rio de Janeiro, finalmente a música começou a ficar com cara de profissional. Surgiu dentro da igreja o termo “banda”, a música “gospel”. Ser crente agora era super legal e tocar na igreja era o sonho de todo jovem cristão.
Foi aí que surgiu a inversão número um: músicos cristãos querem fazer show, querem aparecer, são orgulhosos. Surgiu o termo “espírito de músico” (honestamente eu gostaria de saber de onde, mas não sei), e agora eles eram os grandes vilões. Começaram as “revelações ameaçadoras” (perdoem-me os termos inventivos) que mostravam os músicos como o principal alvo do diabo, o ministério mais tentado da igreja, o mais visado pelo inferno.
Gostaria de fazer um adendo: qualquer ação que exalta Jesus, movimento que promova a expansão do Reino de Deus e o amor ao próximo, é alvo do inferno – só que como muitas vezes não acontece numa plataforma, ninguém vê.
Voltando… músicos na mira, pessoas querendo fazer a coisa por fazer, gente preocupada com técnicas e arranjos, novos convertidos perdidos e buscando uma brecha em tudo isso, e então as primeiras baixas.
Foi essa a época em que a igreja mais perdeu músicos para o mercado secular (só pra esclarecer, eu não acho que o mercado secular seja um problema, vamos tentar não misturar as coisas). Bom, os músicos foram embora e ninguém poderia classificá-los como desviados, apenas que boa parte deles foi ferida, muito ferida pelas instituições. Vejo aqui o retrato do “acusar sem cuidar”. É como falar pra alguém que ela tem lama no rosto e não ajudá-la a limpar, não oferecer-lhe água e toalhas limpas para isso.
Passou o tempo, alguns permaneceram firmes, outros tiveram que assumir o lugar dos que saíram ou pararam. Foi então que aconteceu outro movimento: “É pra Deus, não importa mesmo como devo fazer. Deus é simples e eu sou adorador, não preciso da música”.
Acredito que esse período foi importante pra que houvesse mesmo como que uma desintoxicação de conceitos rançosos acerca da música na igreja. A coisa ficou mais fácil, flexível e leve. As canções não precisavam de tantos arranjos e acordes, todo mundo conseguia cantar e os músicos nem precisavam saber tanto de música para executar. Esse período foi se estendendo e se misturando com uma mudança radical na sociedade: a internet e a conectividade – o mundo na palma da mão.
Músicos sem muito desafio, tudo muito fácil e uma avalanche de informações foi resultando numa juventude sem muita “pegada”, se é que me entendem. A constante confusão que se faz com os termos “adoração” e “música” também colaboram pra distorcer o papel da música na igreja para esta nova geração que tem muita informação mas pouca vivência. Quando digo “vivência” é porque quando comecei na música as coisas eram muito diferentes. Para tocar tínhamos que “tirar” de ouvido, cifrar a mão, fazer cópias e compartilhar. Precisávamos ir em lojas e procurar por materiais escritos, livretos cifrados ou partiturados. Para aprender sobre o ministério, comprávamos livros, participávamos de congressos e treinamentos. Havia um investimento de tempo e dinheiro, e muito interesse se queríamos estar aptos pra tocar ou cantar na igreja. O que vejo hoje é tudo absurdamente acessível, sites que têm tudo pronto: músicas, cifras, audios e até possibilidade de transposição. Vejo milhares de artigos disponíveis, informação que precisávamos garimpar, hoje a um clique, tudo muito fácil… tão fácil que perdeu o valor, ao menos para a geração atual.
Hoje observo cuidadosamente e procuro aqueles que vão dar continuidade, gente capacitada tanto na Palavra quanto na música, conforme nos mostra a Bíblia como deveria ser em 1 Cronicas 25:7 “E era o número deles, juntamente com seus irmãos instruídos no canto ao SENHOR, todos eles mestres, duzentos e oitenta e oito.” Vejam bem: instruídos e mestres, assim deveria ser. Eu fico preocupada pois não são realmente muitos os discípulos da geração passada.
Se são cobrados por falta de compromisso, a sua vida pessoal e profissional são argumentos perfeitamente aceitos, afinal, hoje para que um jovem consiga ser alguém, precisa ter faculdade, estudar, trabalhar. Os relacionamentos estão em alta, e isso é bom, mas há uma “bolha” que infla cada vez mais com o desafio de encontrar verdadeiros amigos nas facilidades das redes sociais. Gente que se conhece, conversa e se envolve virtualmente, mas no mundo material, não se olha, não se toca, não se ajuda nem se ama.
Se são cobrados musicalmente, são os mesmos argumentos numa salada de “adorar não é tocar ou cantar” com “não posso me deixar levar pelo espírito de músico”. E esta é a outra inversão. De músicos muito “músicos” para gente que toca por tocar, a igreja não consegue o equilíbrio na questão e continua com o olhar crítico sem conseguir ajudar de fato.
Enfim, se me perguntarem onde quero chegar, é nisso: “Também, conforme à ordem de Davi seu pai, designou as turmas dos sacerdotes para seus ministérios, como também as dos levitas acerca dos seus cargos, para louvarem e ministrarem diante dos sacerdotes, segundo o que estava ordenado para cada dia, e os porteiros pelas suas turmas a cada porta; porque assim tinha mandado Davi, o homem de Deus.” 2 Crônicas 8:14
Cantores, pastores e porteiros têm o mesmo lugar no serviço. Todos são igualmente necessários e, assim como alguém que guarda as portas não deve deixar de vigiar, pois um minuto de distração pode comprometer o que está do lado de dentro das portas, assim também o que ocupa um lugar de evidência como na música deve fazê-lo com a mesma responsabilidade, ou seja, sendo mestre na palavra e na arte, e sendo íntegro num só ser semelhante a Jesus, dando frutos e abençoando. Os problemas decorrentes destes diferentes períodos aconteceram porque não é assim que o homem vê. Ele gosta de fazer altares, de discriminar graus de importância para as ações dos cristãos, mas se convertermos nosso coração para a simplicidade da beleza da hierarquia estabelecida por Deus, que nos coloca a todos como irmãos do Seu único filho Jesus, todos esses rótulos cairiam por terra, e floresceríamos para a glória de Deus Pai.
Luciana Fratelli
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